Por: Natasha Sá Osório

Já conhece Buenos Aires ou pretende voltar da capital argentina com altas experiências para contar? Então veja um lado menos tradicional da cidade, para quem quer ir além do alfajor, do tango e da Calle Florida. Saiba dicas de onde encontrar a melhor cultura, passeios inusitados, restaurantes e bares que são o segredo das pessoas locais e compras alternativas.

Depois de visitar os aires da capital argentina pela primeira vez, eu decidi voltar, ficar e desvendar o lado B, que para mim é a parte mais buena da cidade. Aquilo que descobri durante os seis meses que morei lá foi um povo boêmio e muito sociável, contrário aos estereótipos que até eles próprios pensam. Nuestros hermanos sabem receber turistas e aprenderam a se adaptar à constante instabilidade do país.

A sua história, que envolve a terrível ditadura militar e a crise econômica de 2001, está presente no dia a dia do portenho comum, que faz questão de se manter política e culturalmente engajado. Por isso, os portenhos estão sempre em busca de novos negócios e atrações que muitas vezes fogem do usual.

Não é exagero dizer que não tive uma única noite de tédio ou um dia chato na cidade. Em Buenos Aires, as coisas realmente acontecem. Passei muitas vezes ao lado dos protestos de final de semana em frente à Casa Rosada enquanto caminhava para dançar junto aos blocos de percussão que animam o bairro de San Telmo. Conheci a nata da sociedade que frequenta os camarotes do teatro Colón, mas também os modestos artistas de rua. Assisti aos festivais de documentários alternativos, concertos de jazz e apresentações de stand-up san telmocomedy dedicadas aos gringos (GrinGo!, em inglês). Vi portenhos nos parques bebericando chimarrões ferventes ao mesmo tempo estirados debaixo do sol quente e em posições contorcionistas para bronzear todo o corpo por igual. Perdi o fôlego em tours de bicicleta noturnos, diurnos e até pedalei usando fantasia. De volta ao Brasil, eu não tenho dúvida: Buenos Aires é um lugar para ir e voltar muitas vezes.

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Experiências culturais

A minha iniciação cultural foi no programa gratuito Noite das Galerias (Gallery Nights). Uma noite por mês (normalmente às sextas-feiras, mas vale seguir a agenda no site oficial), as pequenas galerias de arte dos bairros de Retiro, Palermo, Recoleta e Bairro Norte abrem as portas ao público. Cerca de 50 ateliês competem para chamar a atenção dos visitantes, que são recebidos com vinho ou champanhe pelos curadores. Os próprios artistas explicam suas obras e às vezes os espaços têm até música ao vivo. Essa experiência pode ser definida como uma versão sofisticada e intelectual do que os europeus chamam de pub crawl (um tipo de circuito que passa de bar em bar noite adentro). É tudo muito bem  organizado: o site do Gallery Nights fornece o mapa das galerias para imprimir e vans marcadas com o logo do programa levam às mais distantes.

Gallery NightUm lugar que não está incluído no programa, mas vale muito a pena, é o El Gato Viejo (Avenida Del Libertador, 405 Galpões 1 a 5; abre de quinta a sábado a partir das 19h com entrada franca). O espaço é um restaurante e ateliê localizado num galpão ao lado das linhas férreas no bairro de Retiro. O caminho para chegar é um tanto sinistro, levando você a se perguntar se anotou o endereço certo. Mas, ao ver os animais e monstros feitos de material reciclado do lado de fora, não sobram dúvidas: é lá! Por dentro, as fascinantes esculturas e obras de arte de vários estilos amontoam-se até o teto. Dá a sensação de entrar na casa de um desorganizado colecionador compulsivo. Uma sala ao fundo tem exposições que variam ao longo do ano. Apesar de El Gato Viejo também ter restaurante, ele vale é pelas obras de arte, que são únicas.

E que tal fugir do óbvio indo ao Teatro Cego? Sim, trata-se de uma atração multissensorial. As peças são apresentadas no escuro, usando vários tipos de sons e aromas, rajadas de vento e esguichos de água para estimular o espectador. A experiência fica ainda mais completa se optar pelo pacote que inclui jantar. O site estava em manutenção quando publicamos a matéria, mas a entrada sai a partir de AR$ 80 e o espaço fica na Calle Zelaya, 3006.

Boa gastronomia e bares secretos em Buenos Aires

No que toca à gastronomia diferenciada, Buenos Aires é imbatível. Não faltam restaurantes temáticos, que vão desde afrodisíacos até os do tipo "cozinhe-você-mesmo". Para quem tem tempo limitado, recomendo o programa Fuudis, que leva locais e turistas a experimentar três restaurantes numa só noite, pagando um valor fixo a partir de US$ 45.

Com um sabor um pouco mais caseiro, há alguns anos estão em voga os chamados "restaurantes à porta fechada". Estes são, na verdade, a residência de chefs que criam pratos de maneira informal. Sem qualquer espécie de propaganda ou cartaz de identificação, a fama desses restaurantes nasce do boca a boca. Bate-se à porta para entrar, como um convidado, e muitas vezes partilha-se a mesa com outros clientes. A maior parte não tem cardápio. Eles servem um menu restrito, que muda conforme a vontade do cozinheiro. O Casa Felix (Giribone 947) é um dos mais consagrados, onde o chef Diego Felix decidiu preparar receitas unicamente de peixe, num país que ama a boa carne. Cada refeição consiste em cinco pratosFranks bar pré-definidos, acompanhados por vinho. O restaurante atende apenas 12 pessoas por noite, de quinta a sábado. Por ser muito conhecido, é importante fazer reservas antecipadas através do e-mail info@colectivofelix.com. Atenção: o Casa Felix não aceita cartão de crédito. O chef também dá aulas de culinária, pode ser convidado a cozinhar em festas privadas e por vezes participa em eventos pop up, um movimento em que restaurantes são instalados por curto tempo em espaços centrais das cidades.

Boa comida pede uma boa bebida. Seguindo a lógica desses endereços ocultos, os bares secretos são uma febre em Buenos Aires. O bar Frank's (abre de quarta a sábado, a partir das 21h) é o que tem a entrada mais "dramática" de todas: para ter acesso, é preciso seguir um procedimento digno de filme de espionagem. Toda semana, uma pista é lançada nas redes sociais. Por exemplo, quem é o ex-jogador de futebol argentino que tem uma igreja em sua homenagem? Munida com a resposta, basta dirigir-se ao número 1445 da rua Arévalo, onde dois seguranças esperam. Aproxime-se discretamente, como quem vai fazer negócios ilícitos. Sussurre: "Maradona". Com ar solene, eles abrem a porta para uma sala quadrada, vazia, com apenas uma cabine telefônica vermelha, estilo londrino. Entre e disque um número que está escrito no próprio telefone ou que os seguranças fornecem à entrada. E voilá! Uma porta camuflada abre-se para um corredor (com uma sex shop!) que leva até um elegante bar, com drinques deliciosos.

Passeios inusitados e que vão além do comum city tour

Se você está em busca de experiências com alto teor de excentricidade, o parque temático Terra Santa é a pedida (Av. Rafael Obligado, 5790; abre sextas, das 9h às 21h, sábados, Terra Santadomingos e feriados, das 9h às 22h; entrada: AR$ 70). Aqui se podem ver réplicas de lugares bíblicos de Jerusalém. Monumentos e figuras religiosas, além de um dos maiores presépios do mundo. Tudo é animado por atores vestidos com roupas de época. Algo semelhante, só em Orlando, na Flórida, onde existe o Holy Land.

Essa Buenos Aires fora do comum não é feita só de lugares, mas também de atividades diferentes. Os fãs da fotografia, por exemplo, têm uma opção deliciosa. É o passeio Foto Ruta, que leva a conhecer a cidade de uma maneira bem original: através de uma caça ao tesouro fotográfica. Os participantes começam com uma aula básica sobre foto de rua criativa. Depois eles se aventuram pelas ruas, percorrendo um caminho que é dado por dez pistas. Conforme vão achando os lugares indicados, devem fotografá-los. No final, cumprida a tarefa, são brindados com vinho e muita animação.

Por trás das elegantes fachadas portenhas existem muitos segredos. A agência Zigliotto Viajes tem uma série de passeios que mostram partes ocultas da cidade. Entre eles, o tour noturno Buenos Aires Misteriosa passa por 12 lugares que foram cenários de lendas ou de crimes reais, como o restaurante da cozinheira Emilia Basil, que assassinou um homem e usou o corpo para rechear as empanadas que servia no seu restaurante. Menos grotescos, o Buenos Aires Maçônico desvenda os símbolos espalhados por toda a cidade e leva a conhecer um templo maçon e o Tour do Papa Francisco revela os lugares onde ele cresceu e frequentou. 

Para celebrar a herança arquitetônica, o grupo Eternautas apresenta as ruas da cidade segundo os olhos de historiadores profissionais. Já o Graffiti Mundo mostra aos turistas a arte urbana bonaerense, que deixa de ser pichação para se tornar desenhos com envolvimento político e social.

Compras em Buenos Aires fora do roteiro turísticoFeira de Mataderos

Apesar de Buenos Aires não estar em boa maré para compras, ainda é possível achar barganhas com um toque bem local. Aos domingos, a feira de Mataderos, que fica na periferia, vale a viagem (Avenida de los Corrales, 6500; abre das 11h às 20h). É um contraponto às feiras turísticas de San Telmo e outros bairros mais famosos. O ambiente é de festa gaúcha, com gente trajada a rigor e dançando ritmos típicos como chacarera, zamba e chamamé. Há produtos artesanais genuínos da Argentina, como alfajores, doce de leite, couros, ponchos, acessórios, erva mate e apetrechos para o seu preparo. A atmosfera é marcada também pelas tradicionais parrillas (churrascos) e as corridas de cavalos.

Dentro da cidade, outra opção é o mercado de pulgas (entre as ruas Alvarez Thomas e Dorrego; abre de terça a sexta, das 14h às 18h). Diferente do ar soturno próprio dos comuns mercados do gênero, ele está de volta à sua localização original depois de seis anos em remodelação. Um programa divertido para quem tem olho e gosta de boas pechinchas. Precisa ter um pouco de paciência com os vendedores, que demoram para atender, mas aqui é possível encontrar antiguidades, objetos de decoração retrô e roupas vintage em bom estado.

Por tudo isso, para os que ainda se perguntam se Buenos Aires vale a pena mais de uma vez, eu digo e repito: vale mucho más. Principalmente se você se arriscar nesses lugares e programas nada turísticos ou convencionais.

Fotos: o Obelisco no centro de Buenos Aires (primeira imagem), parede pintada no bairro de San Telmo (segunda foto, à direita), grupo curtindo o Gallery Nights (terceira imagem, à esquerda), o bar Frank's (quarta foto, à direita), Terra Santa (quinta foto, à esquerda) e a Feira de Mataderos (última imagem).

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