O amor resiste à distância?

Por: Stéphanie Boccomino

Não há uma fórmula ideal para manter relacionamentos amorosos estáveis, evitar discussões e aprender a lidar com a personalidade do parceiro. Mas o que acontece quando acrescentamos quilômetros de distância entre o casal? Pode não ter acontecido com você, mas todo mundo conhece alguém que passa ou já passou por essa situação, instigada pelos novos horizontes que têm levado muita gente a movimentar-se por este mundo afora (ou mesmo dentro do Brasil). Mas, afinal, um amor assim dá certo?

Julia Bussius, de 29 anos, e seu marido Luis passaram por isso. Em 2009, ele recebeu uma proposta para trabalhar na Índia. Acabou levando Julia consigo. “Nós pensamos bastante sobre isso e achamos que seria uma experiência interessante para nós dois. Eu aproveitei para escrever meu mestrado quando estava lá, à distância, e trabalhei fazendo frilas para editoras brasileiras”, lembra Julia.

Mas em agosto de 2010, quando ainda estavam no continente asiático, ela recebeu uma tentadora proposta para trabalhar em São Paulo, enquanto o marido já havia sido convidado para ir trabalhar em Beijing, na China. Dessa vez, ela decidiu que não o acompanharia. “Um ano e meio na Índia já tinha sido o bastante. Eu queria muito voltar para o Brasil e ele queria muito ir para a China. Por fim, ele conseguiu negociar que viria para cá a cada dois meses e passaria duas semanas”, conta a editora de livros. Seguiu-se um ano inteiro de “ponte aérea”: ele ia e vinha; ela esperava, morando sozinha na casa de ambos.

O maior empecilho que Julia sofreu com a distância foi a diferença de fuso horário do Brasil em relação à China. Lidar com isso não foi fácil, pois houve um distanciamento do cotidiano do companheiro. “Ele acordava quando eu ia dormir, e vice versa. Era super complicado mesmo quando ele estava aqui, porque ele tinha que acordar no horário chinês para trabalhar. Duas semanas passam voando e o tempo dele era disputado também pela família e pelos amigos.”

Tecnologia e atitude

Em entrevista para o jornal O Diário, o médico psiquiatra e psicoterapeuta Flávio Gikovate, conhecido por seu programa “No divã do Gikovate” da rádio CBN, afirmou que namoro à distância não é dos melhores, mas que nos dias de hoje é rara a situação em que um dos parceiros tem que trabalhar em outra cidade ou país e quer romper a relação; a tecnologia tem se tornado um aliado nestes momentos.

“A tecnologia em geral torna o problema bem mais simples do que foi no passado e são muitos os casais, especialmente aqueles que se amam de verdade, que se mantêm encantados sentimentalmente apesar da distância física”, declarou, apoiando-se nos seus 46 anos de experiência na área de relacionamentos.

No caso de Julia, assim foi. Manteve contato com seu marido através do skype e do whatsapp, mas afirma que passou momentos difíceis. “Nós conversamos bastante a respeito e a gente sabia que tinha um risco envolvido, que seria complicado. Mas, por outro lado, já estávamos juntos há um bom tempo. Apostamos que uma certa distância pudesse até ajudar a renovar a relação”, lembra.

Claro que a tecnologia não é tudo. Mesmo quando a internet falha (a frase típica do skype “você está me escutando?” pode cansar), é preciso focar em outros aspetos do seu dia a dia.

A editora de livros conta que teve que ser muito paciente em relação à situação que ela e seu marido se encontravam e procurou se dedicar à sua vida profissional “Não me arrependo da decisão de ter voltado para o Brasil. Esse trabalho que assumi tem sido muito importante para minha independência e para minha vida profissional”.

Para o psicoterapeuta, o ideal é conciliar a relação amorosa à vida profissional do casal. Isso vai depender de quanto a pessoa é ligada ao trabalho, e se está disposta a deixar tudo para se dedicar à vida a dois. “Muita gente trabalha apenas porque precisa do dinheiro. Nesse caso, abandonar o que faz e buscar outra atividade perto do parceiro é algo que faz sentido. É preciso diferenciar trabalho de carreira e, nesse segundo caso, não convém renunciar em favor do amor, porque aí aos poucos o amado será responsabilizado pelas limitações profissionais”, afirmou. Para ele, é importante ressaltar que a maior parte das pessoas tem trabalho, e não carreira.

Como fazer para dar certo

Flávio Givokate pensa que suportar a falta de convívio diário depende de cada pessoa, já que algumas pessoas acreditam que a distância pode contribuir para a persistência do “encantamento” amoroso, e também não se incomodam que o parceiro fique fora da cidade por semanas.

Para o médico, uma relação mantida indefinidamente à distância só é positiva quando a possessividade de um prejudica a individualidade de outro. “Quem sabe respeitar a individualidade do parceiro não precisa de distância física para a preservar”.

Não existem recomendações especiais para não deixar a relação esfriar, segundo Gikovate. É uma questão de afinidade do casal, especialmente de caráter. “Pessoas honestas honram o que combinam e, se não se vêem em condições de fazê-lo, avisam seu parceiro de que estão se afastando. É claro que, depois de muito tempo de distanciamento físico, as coisas se complicam. Porém, sempre é possível que um visite o outro onde quer que esteja e isso deveria ocorrer com a maior frequência possível”, diz.

Julia pensa que namoros à distância somente são possíveis se tiverem um prazo de duração, mas que, mesmo assim, é uma questão difícil de lidar. “Relacionamento à distância está longe de ser uma relação tranquila. Afinal, a gente quer estar perto de quem gosta”, declara.

Ela recomenda paciência, e diz que a pessoa deve avaliar até que ponto pode se sacrificar pela pessoa amada. “Se você quer ir atrás de uma oportunidade incrível, seu companheiro vai entender. Mas faça de tudo para que possam ficar juntos de novo o mais rápido possível”, alerta. Desde fevereiro de 2012 Julia e Luis moram em São Paulo. A distância, mesmo que por período limitado, não atrapalhou os planos do casal, que segue firme depois de cinco anos e meio de casamento.

 

Na foto: Julia Bussius e o marido, na Índia.

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